Marketing Digital | Internet pode confirmar voto, mas não mudá-lo

As ferramentas virtuais e o marketing digital têm feito sucesso entre os candidatos nessas eleições. O que não falta é Twitter, blog, site, Orkut e Facebook relacionado aos políticos na rede. Mas até que ponto isso influencia o eleitor? Ajuda na escolha do voto?

Para o especialista em mídias sociais e professor da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo, Marcelo Coutinho, a internet pode ajudar a confirmar um voto, mas não mudá-lo. “Um eleitor do Serra dificilmente vai mudar seu voto para a Dilma por causa de uma campanha mais bem feita na internet, ou vice-versa. Mas um indeciso que já tende para um candidato pode encontrar na web o ‘empurrão’ que falta para ele se decidir”, afirmou em entrevista ao Terra.

De acordo com dados do Centro de Estudos sobre as Tecnologias da Informação e da Comunicação (Cetic), no País foram contabilizados 24% de domicílios com acesso à internet, em pesquisa realizada em 2009. Os internautas serão “bombardeados” por candidatos, principalmente por meio das mídias sociais.

Confira a entrevista na íntegra:

Terra: O que faz os políticos e a sociedade acreditarem que este é o ano das eleições da internet?
Marcelo Coutinho: São três fatores distintos: o crescimento do acesso a Internet nos últimos quatro anos, a explosão do uso de redes sociais e o destaque que a mídia deu ao uso da web na campanha de Barack Obama. Em relação a 2006, o número de usuários regulares da Internet no Brasil cresceu em quase 60%, atingindo cerca de 40 milhões de pessoas. E esse crescimento não se deu na classe A/B, que já estava conectada em 2006, mas principalmente nas camadas mais populares (C/D) graças a explosão do uso de Lan Houses e barateamento dos custos de equipamentos e conexão. O brasileiro passa hoje cerca de 70 horas mensais conectado, uma das taxas mais altas do mundo, o que faz o uso da Internet já superar o da TV por assinatura em mais de 40%. O uso de redes sociais também contribui para aumentar a visibilidade da web, e aqui também os números do Brasil são destaque. Segundo a ComScore, que mede a audiência da rede em mais de 40 países, os brasileiros visitam sites deste tipo mais de 42 vezes por mês, o número mais elevado entre todos os países que eles acompanham. Finalmente, temos a questão do uso da Internet na campanha do Obama. Embora, no meu entender, esse fenômeno não vá acontecer no Brasil. A mídia discutiu tanto o assunto que os políticos brasileiros se entusiasmaram – ou, em alguns casos, se amedrontaram – e passaram a prestar mais atenção no assunto.

Terra: Como o senhor avalia as campanhas na internet por meio das mídias sociais?
Marcelo Coutinho: Elas são um elemento importante para ajudar aquele eleitor que já decidiu seu voto, ou já está muito inclinado a votar em um candidato. Fornecem informações adicionais que ajudam a “justificar” sua decisão e facilitam encontrar eleitores que pensam de forma semelhante. Em estudos que fiz sobre o assunto nas eleições de 2006 e 2008 verifiquei que as redes sociais eram frequentadas principalmente pelos eleitores já comprometidos com algum candidato. Seu uso mais efetivo era para difundir questões que, de acordo com seus seguidores, eram reportadas de forma distorcida pela mídia ou pelas campanhas adversárias (independente do espectro político do candidato). Ou seja, elas facilitam justificar uma escolha, que é originada, ou reforçada, por uma atuação conjunta dos outros meios de comunicação e pelas pessoas que fazem parte do grupo social do eleitor (amigos, família, colegas de trabalho, etc).

Terra: Acredita que a campanha na internet possa mudar votos ou ajudar o público a se decidir?
Marcelo Coutinho: Mudar o voto acho difícil, mas ajudar a pessoa a se decidir, sem dúvida. Um eleitor do Serra dificilmente vai mudar seu voto para a Dilma por causa de uma campanha mais bem feita na internet, ou vice-versa. Mas um indeciso que já tende para um candidato pode encontrar na web o “empurrão” que falta para ele se decidir. Ou, mais provável, receber esse “empurrão” por parte de algum amigo que encaminhe para ele uma peça de campanha (e-mail, link, endereço de comunidade) ou uma informação que não está presente em outras mídias. Vale lembrar que na web é muito mais fácil encontrarmos informações detalhadas que não são devidamente exploradas na mídia tradicional, fornecendo mais elementos para que o eleitor justifique de forma racional uma escolha que é predominantemente emocional. Onde eu acho que ela vai realmente fazer a diferença é nas campanhas proporcionais, para deputados. Neste caso, são campanhas sobre as quais o eleitor tem pouca informação na mídia tradicional, e qualquer dado novo pode modificar o voto. Aí sim acho que um uso bem feito da web pode ser decisivo para eleger deputados, principalmente se eles estão afinados com o público mais jovem ou realizam campanhas em segmentos geograficamente muito dispersos. Mas não vejo muito gente falando sobre isso.

Terra: A comparação da campanha de Obama, mobilizada pela internet, com as feitas aqui no Brasil é justa?
Marcelo Coutinho: Não. Nos EUA são cerca de 180 milhões de internautas regulares, para 120 milhões de eleitores regulares. Como lá o voto não é obrigatório, tem mais gente usando a rede que votando. A situação é completamente inversa no Brasil, onde apenas 25% do eleitorado apto a votar utiliza a rede de forma regular. Outro dado importante é que as eleições nos EUA foram as chamadas “eleições de mudança”, um fenômeno bem conhecido na Ciência Política. Há 20 anos os americanos eram governados por alguém de sobrenome Bush ou Clinton. Contextualmente era claro que o momento histórico sinalizava uma mudança. Eleições de mudança tradicionalmente geram um maior envolvimento do eleitor antes mesmo da campanha começar, os eleitores estão mais predispostos a buscar fontes alternativas de informação, e a própria natureza da campanha (mais acirrada) estimula um maior envolvimento com a mídia em geral. Nada indica que será este o caso do Brasil. Até agora, o cenário eleitoral brasileiro se configura mais como de permanência. Nenhum dos dois candidatos na frente das pesquisas vai promover rupturas estruturais com os programas do governo Lula. Neste caso, devemos ter um eleitor mais “acomodado”, com uma menor necessidade de buscar informações que justifiquem sua decisão. Finalmente, devemos lembrar que o próprio David Plouffe, coordenador da campanha do Obama, afirmou que os principais instrumentos de comunicação da campanha foram a televisão e o velho e bom e-mail. Isso não significa dizer que a Web não será importante, mas daí a afirmar que ela vai ser decisiva tem uma enorme distância, ainda mais em um país no qual a televisão e o rádio têm uma enorme influência.

Terra: Por que as mídias sociais estão sendo tão exploradas pelos políticos?
Marcelo Coutinho: Um pouco pela facilidade de uso, muito pelo custo aparentemente baixo e finalmente para passar uma imagem de modernidade. Estar na chamada “mídia social” é muito fácil, rápido e barato, mas fazer campanha bem feita nesse meio é outra conversa. Vamos ver muito candidato se dando mal nas redes sociais porque acha que é só questão de montar um perfil no Orkut, Facebook ou Twitter, lançar um blog e por aí vai. Mas entrar em mídia social sem um planejamento bem feito e metas claras é uma fria, como muitas empresas de renome e com verbas enormes de comunicação já descobriram. O que o eleitor busca nessas redes é interação, diálogo, e não discurso. O candidato está preparado para interagir? Tem equipe, metodologia e capacidade de se engajar em dezenas ou centenas de “micro-diálogos” diários? Ou vai deixar tudo na mão de algum filho ou sobrinho que “entende de computador”? Claro que não me refiro as campanhas majoritárias, que até onde posso ver estão sendo feitas de forma muito profissional, mas com certeza vamos ter casos tragicômicos entre os candidatos proporcionais.

Terra: Qual é o maior desafio dos eleitores e dos candidatos na internet?
Marcelo Coutinho: Para os políticos, lidar com um ambiente no qual o valor primordial é a transparência. Toda tentativa de se manipular o eleitor na rede acaba sendo descoberta. Por mais gente competente que o candidato possa contratar, as pessoas mais espertas vão estar sempre trabalhando para alguma outra candidatura ou organização. Isso só pode ser contornado através da construção de ambientes colaborativos e participativos, e acho que ainda não existe maturidade no uso destas ferramentas para construir isso por parte dos políticos, até porque o tempo de campanha é muito curto. Em relação ao eleitor, acho que o maior desafio vai ser gerenciar sua privacidade para evitar ver seu nome associado indevidamente com um ou outro candidato, pelo simples fato de ele ter mandado uma pergunta ou até ter tido seu e-mail inscrito em um site por um amigo ou em uma lista de spam.

Fonte: Terra

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3 comentários para “Marketing Digital | Internet pode confirmar voto, mas não mudá-lo”

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